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NEM DEPOIS DA MORTE HÁ DIGNIDADE?

por Paulo Borges
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Neste 2 de novembro, Dia de Finados, enquanto famílias visitam os túmulos de seus entes queridos, Ipiaú tem um motivo a mais para lamentar: o tratamento dispensado pelo poder público àqueles que já partiram.

Foto: Divulgação

A situação do Cemitério Jardim da Saudade II, o conhecido Cemitério Novo, é um retrato constrangedor da falta de planejamento e do descaso administrativo. A área destinada à ampliação, anteriormente utilizada como mangueiro e pastagem, passou a receber sepultamentos em meio a denúncias de ausência de infraestrutura mínima.

É difícil aceitar que uma cidade que tanto se orgulha de seu desenvolvimento não consiga sequer oferecer um local digno para sepultar seus mortos.

Os problemas, entretanto, não começaram ontem. Em agosto de 2025, familiares já denunciavam o abandono do espaço, tomado pelo matagal, que dificultava até mesmo a identificação das sepulturas.

Mas o que já era preocupante ganhou contornos ainda mais revoltantes em 2026. Familiares denunciaram a circulação de bovinos e cavalos pela área destinada aos sepultamentos, inclusive com relatos de animais pisoteando túmulos e comendo flores depositadas sobre as sepulturas. Há, ainda, relatos de familiares que precisaram entrar nas covas abertas para nivelar o solo, diante das condições encontradas para o sepultamento.

A que ponto chegamos? Não bastasse a dor de perder alguém, famílias ainda precisam enfrentar a indignidade de um espaço que, segundo as denúncias, sequer oferece condições adequadas para a despedida.

O episódio mais emblemático ocorreu em julho deste ano, quando familiares de Aderval Rodrigues Andrade, de 54 anos, se recusaram a sepultá-lo na área indicada pela administração municipal. Diante das condições encontradas, a família tomou uma decisão extrema: transferiu o corpo para o distrito de Algodão, no município vizinho de Ibirataia, onde finalmente realizou o sepultamento.

Imaginem a dimensão dessa situação: uma família, já fragilizada pela perda, precisou deixar o próprio município para conseguir sepultar dignamente um ente querido. (Sem espaço no cemitério de Ipiaú, família transfere sepultamento para Algodão e busca a Justiça)

A indignação não terminou ali. Posteriormente, os familiares retornaram ao cemitério e contestaram publicamente os esclarecimentos apresentados pela Prefeitura, mostrando as condições da área e questionando a infraestrutura prometida pela administração. (Família volta ao cemitério e contesta esclarecimentos da Prefeitura sobre área de sepultamentos).

O caso ultrapassou os limites do município e chegou ao Ministério Público da Bahia, por meio de uma representação apresentada pelo deputado estadual Hilton Coelho, solicitando a apuração de possíveis irregularidades administrativas, ambientais, urbanísticas e sanitárias. (Deputado aciona Ministério Público e pede investigação sobre ampliação do Cemitério Jardim da Saudade II).

Na ocasião, a Prefeitura informou que o projeto de ampliação estava em andamento, com previsão de construção de um muro e capacidade para aproximadamente 1.050 novos sepultamentos. Entretanto, passados quatro meses, a gestão da prefeita Laryssa Dias precisa responder: o que efetivamente foi feito? O muro anunciado foi construído? A área recebeu a infraestrutura necessária? As famílias já podem sepultar seus mortos com a dignidade que merecem?

Administrar uma cidade não é apenas promover festas, organizar eventos, realizar inaugurações e divulgar peças publicitárias. É, sobretudo, garantir o funcionamento dos serviços essenciais, inclusive daqueles que não rendem fotografias bonitas para as redes sociais.

Não se exige luxo, mármore ou monumentos. Exige-se respeito. Um cemitério não pode funcionar à base do improviso, muito menos quando esse improviso recai sobre famílias fragilizadas pela perda de alguém que amam.

E há algo ainda mais grave nessa história: a necessidade de sepultamentos não surge de surpresa. A morte é uma realidade inevitável, e cabe à administração pública planejar a expansão dos cemitérios antes que a falta de espaço se transforme em uma crise. Esperar que famílias enlutadas denunciem o problema para, somente então, anunciar providências é inverter completamente a lógica da gestão pública.

Neste Dia de Finados, enquanto flores são depositadas sobre os túmulos e orações são dirigidas aos céus, cabe uma reflexão: que respeito uma administração demonstra pelos vivos quando permite que denúncias tão graves sobre o descanso dos mortos permaneçam sem respostas satisfatórias?

A morte é inevitável. A falta de planejamento, não.

E se nem depois da morte o cidadão consegue encontrar dignidade, o problema não está no destino. Está na administração.

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