
O cenário político no Sul da Bahia ferve com uma narrativa que, para muitos observadores atentos, soa como um ensaiado jogo de cena. A recente suspensão temporária das importações de amêndoas da Costa do Marfim, celebrada com estardalhaço digital pela prefeita de Gandu, Daiana Santana (Dai), e pelo ex-prefeito Léo de Neco, levanta uma questão incômoda: até onde vai o limite entre a representação pública e o marketing político de conveniência?
A movimentação da dupla em Brasília, embora vendida como uma “conquista histórica”, ocorreu sob uma sombra de exclusão que não passou despercebida. Ao sentarem à mesa do Ministério da Agricultura sem a presença da Associação Nacional dos Produtores de Cacau (ANPC) — a legítima voz técnica e combativa do setor —, Dai e Léo teriam, na prática, isolado quem de fato entende o risco fitossanitário. Teria a dupla “rifado” a autonomia dos produtores em troca de um vídeo de 60 segundos para as redes sociais?
O pano de fundo dessa pressa em anunciar “vitórias” tem endereço certo: a Assembleia Legislativa da Bahia (ALBA). Léo de Neco, que não esconde sua frenética busca por uma cadeira no Legislativo Estadual em 2026, parece ter encontrado na crise do cacau o combustível ideal para sua pré-candidatura. O problema é que, no campo, o sentimento é de que a categoria foi usada como “escada”. A suspensão obtida é paliativa, atinge apenas um país e deixa brechas que a própria presidente da ANPC, Vanuza Barroso, classificou como insuficientes e perigosas.
O silêncio ou a postura excessivamente diplomática de Dai e Léo diante da Instrução Normativa nº 125 — a verdadeira vilã da história — levanta suspeitas sobre um possível alinhamento com o governo de Jerônimo Rodrigues, que já sinalizou querer o fim das manifestações. Estariam os líderes de Gandu servindo de “bombeiros” para apagar o incêndio dos protestos em troca de apoio político nas altas esferas?
Enquanto Léo de Neco pavimenta sua estrada rumo à Assembleia, o produtor de cacau amarga a incerteza. A tentativa de transformar uma medida frágil em solução definitiva é uma aposta arriscada. O setor produtivo, calejado por promessas de ano eleitoral, já começa a questionar: os políticos foram a Brasília salvar o cacau ou salvar os próprios planos de poder? A resposta virá das bases, que já convocaram novo protesto para esta sexta-feira (27) em Ilhéus. Resta saber se haverá coragem para encarar o olho no olho com o produtor ou se o “apoio” só existe onde há sinal de Wi-Fi. * Redação Ipiaú TV