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Vanuza do Cacau sobe o tom, critica importações e decide levar a crise do cacau para Brasília

por suporte
Em entrevista ao Ipiaú TV, candidata a deputada federal relata trajetória como produtora, questiona políticas públicas, critica governos e indústrias e afirma que sua candidatura nasceu de uma mobilização dos próprios cacauicultores

A crise da cacauicultura, as importações de amêndoas, os riscos fitossanitários, a queda na renda dos produtores, a atuação dos governos e a entrada de uma representante do setor na disputa por uma vaga na Câmara dos Deputados foram alguns dos principais temas de uma entrevista especial realizada nos estúdios do Ipiaú TV com Vanuza Lima Barroso, conhecida como Vanuza do Cacau.

O bate-papo foi conduzido pelo repórter Cristiano Quaresma, no quadro Cri Cri na Lata, em uma conversa que percorreu desde a história pessoal da candidata até questões consideradas estratégicas para o futuro da cacauicultura brasileira.

Logo no início, Cristiano destacou que, mais do que uma entrevista formal, a proposta era promover uma conversa entre pessoas que conhecem a realidade do campo. Vanuza agradeceu o espaço e afirmou que a afinidade com a lavoura e a defesa dos produtores tornavam o encontro uma oportunidade para discutir os problemas enfrentados pelo setor.

De uma trajetória simples à produção de cacau

Durante a conversa, Vanuza contou que sua relação com o campo não nasceu de uma propriedade herdada da família. Segundo ela, seu pai foi trabalhador rural, enquanto seu avô trabalhou como gerente de fazenda em Guaratinga. A família, porém, enfrentou dificuldades econômicas durante a crise provocada pela vassoura-de-bruxa e acabou deixando a Bahia em 1995, seguindo para Minas Gerais.

Vanuza relatou que retornou à Bahia somente em 2019, quando, ao lado do marido, conseguiu adquirir uma propriedade rural.

Ela fez questão de destacar que a conquista ocorreu por meio de trabalho e esforço próprio.

Segundo a produtora, manter uma propriedade rural é tão difícil quanto conquistá-la. A administração da fazenda, os investimentos, os custos de produção e a necessidade de preservar o patrimônio fazem parte de uma rotina que, para ela, exige dedicação permanente.

A experiência pessoal, segundo Vanuza, acabou se transformando em motivação para defender outros produtores que enfrentam dificuldades semelhantes.

“Caí de paraquedas” no mundo do cacau

Vanuza também contou como começou a participar das discussões relacionadas à cacauicultura.

Ela afirmou que, quando adquiriu a propriedade, em 2019, ainda desconhecia diversos termos e estruturas relacionadas ao setor. Disse que não sabia, por exemplo, detalhes sobre moagem e sobre o próprio Ministério da Agricultura.

A partir da participação em grupos de WhatsApp e de conversas com produtores, começou a se aprofundar nos problemas da cadeia produtiva.

Em 2022, diante das reclamações dos produtores e da dificuldade de remuneração da atividade, ela decidiu ampliar sua participação. Surgiu então o grupo Cacau Nacional, criado para reunir produtores de diferentes estados e discutir as principais pautas da atividade.

A mobilização, segundo Vanuza, posteriormente contribuiu para a organização da Associação Nacional dos Produtores de Cacau (ANPC), entidade da qual ela passou a exercer a presidência.

Importações de cacau entram no centro da discussão

Um dos momentos mais contundentes da entrevista ocorreu quando Vanuza abordou as importações de cacau.

A produtora afirmou que passou a estudar o assunto depois de identificar o que considera um dos principais gargalos enfrentados pelos produtores brasileiros.

Ela relatou que buscou documentos públicos sobre as importações e utilizou a plataforma Fala.BR, do Governo Federal, para solicitar informações.

Segundo seu relato, recebeu um documento com centenas de páginas e passou a estudar os dados, buscando também informações técnicas de especialistas.

Vanuza afirma que existem riscos relacionados à entrada de pragas e doenças que não estariam presentes no Brasil. Entre as doenças citadas por ela estão Phytophthora megakarya e Striga spp.

A candidata defendeu que o país tenha maior rigor no controle fitossanitário das importações e afirmou que os produtores precisam ter acesso a informações oficiais e transparentes.

Durante a entrevista, ela também mencionou a existência de discussões e iniciativas legislativas relacionadas à suspensão das importações de cacau, citando o Projeto de Decreto Legislativo nº 330/2022.

Críticas aos governos e à atuação política

Vanuza não poupou críticas aos governos federal e estadual.

Ao comentar articulações envolvendo produtores e autoridades, afirmou que esperava a presença de técnicos especializados em determinadas agendas e criticou o que classificou como excesso de participação política em discussões que, na sua avaliação, deveriam contar com especialistas.

Ela citou a necessidade de profissionais como fitopatologistas e economistas para discutir questões relacionadas às doenças do cacau, importações, preços e impactos econômicos.

A produtora também afirmou que não aceita que a pauta do cacau seja utilizada apenas durante períodos eleitorais.

Para Vanuza, políticos que buscam apoio dos produtores precisam demonstrar, por meio de ações e votações, que realmente defendem a cadeia produtiva.

O problema que vai além da roça

Outro ponto de destaque foi o impacto econômico da crise.

Durante o bate-papo, Cristiano Quaresma chamou atenção para a diferença entre o preço internacional do cacau e o valor recebido pelos produtores no mercado interno.

Vanuza ampliou a discussão e afirmou que não é apenas o produtor quem perde.

Segundo ela, quando o produtor recebe menos, o impacto chega ao meeiro, ao trabalhador rural, ao comércio, aos fornecedores de adubo e outros insumos e, posteriormente, à arrecadação dos municípios.

Na avaliação da produtora, a crise do cacau precisa ser tratada como um problema econômico e social de toda a região.

Ela afirmou que centenas de municípios dependem direta ou indiretamente da atividade e alertou para o risco de aumento do desemprego e do enfraquecimento do comércio caso a cadeia produtiva continue perdendo força.

“As indústrias têm cacau demais”

Ao responder sobre os motivos da diferença entre o preço internacional e o valor pago ao produtor, Vanuza voltou a apontar as importações como um dos principais fatores.

Na avaliação apresentada durante a entrevista, o volume de cacau importado aumenta os estoques das indústrias e reduz o poder de negociação dos produtores brasileiros.

Ela também criticou o fato de grandes empresas do setor serem multinacionais e questionou o que aconteceria caso uma doença atingisse a produção brasileira.

Vanuza levantou ainda questionamentos sobre possíveis relações entre interesses econômicos e política. Nesse ponto, porém, tratou-se de uma indagação apresentada por ela durante a entrevista, sem apresentação, no bate-papo, de provas de eventual financiamento político por empresas do setor.

A defesa de uma representação política do cacau

Foi nesse contexto que surgiu a candidatura.

Questionada por Cristiano Quaresma sobre o motivo de ter decidido disputar uma eleição, Vanuza afirmou que a decisão nasceu de um movimento dos próprios produtores.

Ela disse que, após anos de atuação à frente das pautas da cacauicultura, passou a receber pedidos para disputar uma vaga na Câmara dos Deputados.

Com os filhos já adultos e encaminhados profissionalmente, Vanuza afirmou que decidiu aceitar o desafio.

A candidata declarou que pretende transformar a experiência adquirida na representação dos produtores em atuação política.

Durante a entrevista, apresentou o número 1040 e defendeu que o setor do cacau tenha uma voz própria em Brasília.

Para ela, outras cadeias produtivas possuem representantes políticos e a cacauicultura também precisa ocupar esse espaço.

“Eu sou do cacau”

Questionada sobre posicionamento político, Vanuza afirmou que não pretende pautar sua atuação pela divisão tradicional entre esquerda e direita.

Segundo ela, sua prioridade é a defesa dos produtores de cacau.

A candidata afirmou ainda que acompanha votações e documentos públicos relacionados às pautas do setor e criticou parlamentares que, segundo sua avaliação, deixam de participar de votações importantes e posteriormente procuram os produtores em busca de apoio eleitoral.

Para Vanuza, representar uma região significa estar presente nas decisões que impactam diretamente a população.

Mulher no comando de uma pauta historicamente masculina

A entrevista também abriu espaço para discutir a participação feminina na política e na representação do setor rural.

Vanuza reconheceu que a atividade de representação dos produtores de cacau historicamente foi ocupada majoritariamente por homens, mas afirmou que o fato de ser mulher nunca foi motivo para abandonar a luta.

Ela defendeu uma maior presença feminina em entidades, associações, cooperativas e espaços de poder.

Na avaliação da candidata, as mulheres precisam ocupar posições de liderança e participar diretamente das decisões que afetam suas comunidades.

A fazenda, a família e o amor pelo cacau

Apesar do tom político da entrevista, Vanuza também falou sobre sua relação pessoal com a propriedade rural.

Ela explicou que o marido é mais ligado à parte técnica da produção, enquanto ela prefere atuar na administração, compra de insumos, contratação de trabalhadores e gestão financeira da fazenda.

Vanuza afirmou que gosta de estar na propriedade e descreveu a fazenda como um ambiente de tranquilidade e contato com a natureza.

Em determinado momento, fez uma comparação entre regiões produtoras de cacau e destinos turísticos conhecidos por sua indústria de chocolate.

Segundo ela, regiões que não possuem sequer um pé de cacau conseguiram transformar o chocolate em uma poderosa atividade econômica, enquanto áreas produtoras brasileiras ainda não conseguiram aproveitar todo o potencial da cadeia.

Caso Biofábrica também foi abordado

Na parte final da entrevista, Cristiano Quaresma questionou Vanuza sobre um episódio envolvendo a Biofábrica.

Ela relatou ter recebido uma denúncia sobre uma possível contaminação por vírus do mosaico e afirmou que foi até o local para buscar informações.

Segundo Vanuza, uma funcionária teria relatado a existência da doença. A candidata afirmou ainda que posteriormente entrou em contato com essa pessoa e ofereceu ajuda profissional caso ela sofresse alguma consequência por ter conversado com ela.

Vanuza alegou que uma conversa teria sido editada e divulgada em blogs de forma que, na sua avaliação, teria provocado danos à sua imagem.

Ela afirmou ter recorrido à Justiça e disse que conteúdos considerados difamatórios foram retirados após decisões judiciais.

Sobre a suposta presença do vírus do mosaico, Vanuza foi categórica ao explicar que não cabe a ela confirmar tecnicamente a existência da doença.

Segundo seu relato, a confirmação depende de análise laboratorial e, até o momento da entrevista, ela aguardava o resultado.

A candidata ressaltou que sua preocupação está relacionada à possibilidade de doenças atingirem as lavouras e defendeu a apresentação de laudos técnicos para esclarecer a questão.

Uma candidatura que promete colocar o cacau no centro do debate

Ao final da conversa, Vanuza reafirmou que sua candidatura representa, segundo ela, uma tentativa de levar para Brasília uma pauta que considera historicamente negligenciada.

A produtora afirmou que não se apresenta como “salvadora da pátria”, mas como alguém que pretende iniciar uma nova etapa de representação política da cacauicultura.

O número 1040, apresentado durante a entrevista, foi associado por ela à defesa do cacau, dos meeiros, trabalhadores rurais, comerciantes e de toda a cadeia econômica ligada à produção.

A entrevista revelou uma candidata disposta a adotar um discurso duro contra o que considera erros de governos, interesses das indústrias e ausência de representação política efetiva.

Mais do que uma apresentação eleitoral, o encontro colocou em discussão uma pergunta que atravessou praticamente toda a conversa: por que uma das principais regiões produtoras de cacau do país ainda encontra tantas dificuldades para transformar sua produção em desenvolvimento econômico e força política?

A resposta, para Vanuza do Cacau, passa por organização, fiscalização, políticas públicas, valorização do produtor e, principalmente, pela presença de representantes do setor dentro das instituições onde as decisões são tomadas.

A entrevista completa está disponível nas plataformas do Ipiaú TV e no canal do Cri Cri na Lata.

Redação Ipiaú TV

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