
IPIAÚ — Seis dias após uma força-tarefa integrada entre o Ministério Público Estadual (MP-BA), a Polícia Militar e a Secretaria Municipal de Meio Ambiente resultar na detenção de seis homens e na apreensão de um caminhão na localidade conhecida como Areão dos Cometas, a reportagem do Ipiaú TV voltou ao local nesta segunda-feira (25). Longe dos holofotes da esfera judicial, a equipe entrou no Rio de Contas para registrar o contraponto e mostrar a realidade dos trabalhadores informais que dependem da atividade para sobreviver.

Foto: Ipiaú TV
A operação, ocorrida no último dia 18 de maio, cumpriu uma determinação baseada em um procedimento administrativo instaurado pelo promotor de Justiça Lucas Ramos de Vasconcelos. A investigação do MP-BA apura a extração clandestina de areia, apontada por denúncia anônima como causadora de impactos ambientais no leito do rio. Contudo, no local da labuta, o cenário revela homens que enfrentam o perigo e o esforço físico extremo para garantir o sustento familiar.
Histórias de vida ancoradas no rio

Foto: Ipiaú TV
Entre os trabalhadores que pediram direito de resposta está Nélio, popularmente conhecido como “Negão”. Com raízes familiares profundas no Beco do Rio, ele relata que a extração de areia se tornou sua única alternativa de renda após passar por empresas locais.

Foto: Ipiaú TV
“Hoje meu sustento todo é daqui, eu não tenho outra renda a não ser a areia. Pago R$ 1.000,00 de aluguel dentro de Ipiaú com o que tiro daqui”, desabafou o trabalhador, ressaltando o comportamento respeitoso da Polícia Militar durante a abordagem da semana passada. “Os policiais chegaram educadamente, não agrediram ninguém. Eles têm que fazer o papel deles, o trabalho deles é esse, e a gente acompanhou.”
Os areeiros rebatem as acusações de degradação das margens. Segundo eles, a retirada do mineral é feita estritamente no meio do rio, evitando o desmoronamento dos barrancos e a destruição de áreas de lazer da comunidade, como o campo de futebol local.
O garimpo subaquático: risco a 3 metros de profundidade

Foto: Ipiaú TV
Para registrar o processo, o repórter Cristiano Quaresma embarcou em uma das canoas utilizadas pelos trabalhadores. A dinâmica da atividade impressiona pela precariedade e pelo risco: sem equipamentos modernos, os areeiros utilizam óculos de proteção e mergulham a profundidades que atingem até 3 metros.

Foto: Ipiaú TV
Lá no fundo, de forma totalmente manual, eles selecionam e enchem latas com a areia fina destinada à construção civil da região. “É um trabalho bastante complicado, não é fácil. E isso tudo é para levar o pão de cada dia para casa. Se a gente não puder tirar areia, vai viver de quê?”, questionou um dos mergulhadores.
O impasse jurídico e ambiental
Enquanto os trabalhadores defendem o direito ao trabalho, o procedimento do Ministério Público segue ritos rigorosos. O órgão detalha que a lavra sem autorização ocorre há cerca de dois anos em regime contínuo, de segunda a sábado. O MP-BA estipulou um prazo improrrogável de 10 dias para que o INEMA, a Delegacia Territorial, a 55ª CIPM e a Secretaria Municipal de Meio Ambiente apresentem laudos técnicos e relatórios sobre a fiscalização da Área de Preservação Permanente (APP).
O impasse em Ipiaú expõe o choque entre a rigidez da legislação ambiental e a necessidade de sobrevivência de famílias históricas da beira do Rio de Contas, que agora clamam por alternativas de regularização ou assistência para não perderem sua única fonte de dignidade. * Redação Ipiaú TV