
A deflagração da Operação Carta Marcada, voltada à apuração de possíveis irregularidades em contratos firmados pela Prefeitura de Itagibá com empresas privadas, ainda se encontra em fase de investigação e sem qualquer conclusão judicial. Apesar disso, o episódio já extrapolou o campo jurídico e passou a ocupar posição central no debate político do município.
Na segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026, durante entrevista ao programa Conexão 95, apresentado pelo radialista Edher Ramos, a ex-candidata a prefeita Dalila Aguiar, derrotada nas eleições municipais de 2024, comentou publicamente a operação. A manifestação marcou um reposicionamento político diante de um fato de grande repercussão institucional, que envolveu cumprimento de mandados de busca e apreensão, afastamento de servidores públicos e bloqueio de bens, conforme informações divulgadas oficialmente pelas autoridades.
O discurso adotado por Dalila Aguiar foi cuidadosamente estruturado. Sem fazer acusações diretas ou antecipar responsabilidades criminais, a ex-candidata destacou o caráter inédito da operação em Itagibá, a atuação de órgãos especializados como o Departamento de Repressão e Combate ao Crime Organizado (DRACO) e a Delegacia Estadual de Combate à Corrupção (DECCOR), além da autorização judicial que respaldou a ação. Também questionou declarações atribuídas ao prefeito municipal, que teria classificado a operação como “mentirosa”.
Trata-se, de forma objetiva, de um movimento político. E é justamente nesse ponto que surge o debate central: há algo de errado nisso?
Do ponto de vista democrático, não. A política se constrói a partir de fatos públicos, crises institucionais e disputas de narrativa. Lideranças de oposição, especialmente aquelas que permanecem ativas no cenário político, tendem a ocupar espaços de fala em momentos como esse. O uso político de uma investigação em andamento, por si só, não é ilegal nem ilegítimo.
O limite, contudo, é delicado. Quando o discurso político respeita a presunção de inocência e reconhece que cabe exclusivamente à Justiça apurar responsabilidades, ele permanece dentro dos parâmetros democráticos. O risco surge quando a crítica política ultrapassa esse limite e passa a induzir julgamentos antecipados perante a opinião pública.
Também chama atenção a reação da gestão municipal diante da operação. Ao minimizar ou desqualificar publicamente uma ação conduzida por órgãos especializados e autorizada pelo Poder Judiciário, cria-se um ambiente propício para o acirramento do debate político. Nesses contextos, o espaço deixado pela comunicação institucional costuma ser rapidamente ocupado por discursos de oposição — um movimento previsível no funcionamento da política.
O episódio revela, portanto, mais do que uma investigação em curso. Expõe o funcionamento natural do jogo político, no qual fatos jurídicos de grande impacto transbordam para o campo da opinião pública, alimentando discursos, posicionamentos e embates narrativos.
Enquanto a Justiça segue seu curso, com o dever de apurar os fatos de forma técnica e imparcial, à sociedade cabe acompanhar os desdobramentos com senso crítico, distinguindo investigação, discurso político e decisão judicial. Em Itagibá, a operação segue nos autos. A política, como sempre, segue em movimento. * Redação Ipiaú TV