
A política costuma se manifestar em momentos estratégicos. Em Itagibá, o prefeito Marcos Valério Barreto, o Marquinhos, publicou um vídeo em seu perfil no Instagram nesta quinta-feira (29), poucos dias depois de um secretário municipal e uma servidora da Controladoria-Geral do Município terem sido afastados de suas funções por determinação judicial, no contexto da Operação Carta Marcada, deflagrada pela Polícia Civil.
No vídeo, o prefeito destacou a distribuição mensal de mais de 1.500 cestas básicas e afirmou que “muita gente tenta impedir isso, fazendo denúncia, fazendo relatos mentirosos”. Em seguida, comentou sobre a investigação policial, dizendo que “a mentira só permanece até o dia que a verdade chega” e garantiu estar “perto de esclarecer tudo isso”.
A fala chama atenção não apenas pelo conteúdo, mas pelo contexto. O gestor se manifesta publicamente enquanto as investigações ainda estão em andamento e antes de qualquer conclusão oficial por parte da Justiça. Ao fazer isso, cria-se uma narrativa política paralela à apuração técnica conduzida pela Polícia Civil, o que naturalmente gera questionamentos na sociedade.
Outro ponto que desperta debate é a associação entre políticas sociais, como a distribuição de cestas básicas, e a tentativa de desqualificar denúncias que resultaram em uma operação policial. O discurso pode levar parte da população a interpretar investigações como ataques políticos, e não como instrumentos legais de fiscalização.
Segundo informações oficiais da Polícia Civil, as investigações apontam indícios de direcionamento contratual e de contratações reiteradas por inexigibilidade de licitação, em possível desacordo com a legislação vigente. As apurações também indicam a atuação coordenada entre agentes públicos e representantes de empresas privadas de consultoria, com contratos sob investigação por suposto superfaturamento.
A Polícia Civil informou que as investigações continuam, com o objetivo de identificar outros recursos possivelmente desviados e eventuais novos envolvidos, reforçando que não há conclusão definitiva até o momento.
Diante desse cenário, surge um questionamento legítimo: é prudente que um gestor público antecipe conclusões e classifique denúncias como mentirosas antes do encerramento das investigações? Ou seria mais adequado aguardar o desfecho das apurações policiais e judiciais, respeitando o devido processo legal?
No fim, a população de Itagibá não precisa de narrativas antecipadas, mas de fatos esclarecidos, investigações concluídas e transparência, seja qual for o resultado. * Redação Ipiaú TV