
“Conheça a história de Seu Borges: 90 anos de vida, 58 anos de comércio e uma vida inteira dedicada ao Bairro Euclides Neto.” De filho da zona rural de Ipiaú a pioneiro do comércio urbano, Eraldo Gomes Ribeiro, carinhosamente conhecido como Seu Borges, trouxe do campo valores de trabalho duro, resiliência e simplicidade que marcaram toda a sua vida. Sua trajetória não é apenas a história de um comércio, mas de um legado de dedicação à família e amor à comunidade, ajudando a transformar o bairro que hoje chama de lar. Este texto preserva a forma como os colaboradores relataram suas lembranças sobre Seu Borges.
Infância e Vida Rural: Memórias do Campo e Chegada ao Bairro Euclides Neto
O presente texto é uma mini biografia que reúne as memórias de Eraldo Gomes Ribeiro, conhecido carinhosamente como Seu Borges. Desse modo, descrevemos os relatos orais de Seu Borges e de sua esposa, Eliudes Souza, com o objetivo específico de documentar, em formato de pequena biografia, o legado e a história de um dos pioneiros do comércio do Bairro Euclides Neto. Sugerimos, ainda, futuras pesquisas acerca do sujeito histórico em questão, que, até o momento da escrita deste texto, continua em plena atividade, todos os dias da semana, de domingo a domingo, em seu comércio. Portanto, o texto baseia-se na metodologia bibliográfica e na história oral, valorizando os relatos de um cidadão trabalhador e pai de família.
Eraldo Gomes Ribeiro, atualmente com 90 anos, é filho de Vitor Soares Ribeiro e Maria Gomes de Lemos. Seu Borges nasceu na zona rural de Ipiaú, na região conhecida como Bom Sem Farinha. Desde criança, começou a trabalhar na pequena propriedade rural da família, o que limitou suas experiências típicas da infância. Ainda jovem, desenvolveu hábitos de responsabilidade, dedicação e resiliência que moldariam sua trajetória pessoal e profissional.
Ao longo de sua vida, Seu Borges construiu não apenas um comércio consolidado, mas também uma reputação de homem íntegro, respeitado e querido pela comunidade local. Seu empreendimento não era apenas um local de compra e venda, mas também um ponto de encontro para os moradores, um espaço de convivência e troca de experiências, fortalecendo os laços sociais do bairro.
Seus relatos, permeados por lembranças da infância, da vida rural e das transformações urbanas de Euclides Neto, constituem uma fonte valiosa para compreender a história social e econômica da região, assim como o cotidiano de seus pioneiros. Mesmo após décadas de trabalho, Seu Borges permanece ativo, demonstrando uma determinação e vitalidade que inspiram tanto sua família quanto os vizinhos. Seu exemplo evidencia a importância do trabalho, da perseverança e da dedicação à comunidade, valores que ele cultivou e transmitiu ao longo de toda a sua vida.
“NO BAIRRO EUCLIDES NETO, CONSTRUÍ MINHA FAMÍLIA, MANTENDO VIVAS MINHAS RAÍZES DA VIDA RURAL.” Ele é casado há 63 anos com dona Eliudes Souza Santos, o enlace matrimonial foi realizado na matriz de Jitaúna-BA, o casal tem quatro filhos e quatro filhas, com o o total de oito pessoas. são eles/as: Elenice, Eleilda, Paulo, Edielson, Ednaldo, Eleieton, Maria e Elenildes e, do mesmo modo, o casal tem vários netos e bisnetos. Pontuando, que caracteristicamente a família possui traços étnicos negros/indígenas.” A memória, como propriedade de conservar certas informações, remete-nos em primeiro lugar a um conjunto de funções psíquicas, graças às quais o homem pode atualizar impressões ou informações passadas, ou que ele representa como passadas” (LE GOFF, 1990, p. 366).

Seu Borges trabalha há 58 anos em sua mercearia e, até o momento da escrita, permanece ativo. Ele relata:“Houve uma evolução para melhor. Antigamente, grande parte dos gêneros alimentícios — ovos, café, açúcar, pães, óleo, farinha, bolachas fofa e de coco — eram embrulhados em papel escuro. Hoje, os alimentos são industrializados emelhor embalados, facilitando a vida dos clientes.”O relato evidencia a transformação do comércio local, mostrando como a modernização dos produtos impactou a vida dos consumidores e como Seu Borges se adaptou às mudanças mantendo seu comércio relevante na comunidade.

“Quando eu vim da zona rural, da região do Bom sem Farinha, o bairro Novo estava no início do seu processo de desenvolvimento, tinha apenas quatro anos de fundação e havia poucos comerciantes na localidade. O primeiro de que tenho lembrança era seu Uilson, que vendia fatos e outras mercadorias. Pouco tempo depois, ele me alugou um ponto comercial; mais adiante, comprei um terreno e construí minha casa e meu comércio, onde estou até hoje com parte da minha família. Outros comerciantes antigos do bairro foram Guilherme, Durval, Alcides, Pedro Vaz e Gordo, todos in memoriam.”
“Quando cheguei ao bairro Novo, havia poucas casas, muito mato e chovia bastante. A igreja São José, o colégio Agostinho Pinheiro e o jardim ainda não existiam. A atual igreja de São José era uma pequena capela que pertencia à Matriz de São Roque.”Esse trecho evidencia como o bairro Novo estava em fase inicial de desenvolvimento, mostrando a simplicidade e os desafios da época.Além disso, reforça a importância da comunidade na construção de suas próprias referências religiosas e educacionais.

Relato sobre a construção da Igreja São José Operário
A construção da Igreja São José Operário foi resultado da união e do amor de padres, freiras e fiéis da comunidade. Inicialmente, o local era uma pequena comunidade eclesiástica, erguida com lonas e taipa. A população local se uniu, contribuindo e doando materiais de construção para erguer a igreja. Entre as pessoas que trabalharam desde o início estavam: dona Filinha, mãe de Jajai; Anísio Cardoso; seu Pedrinho; seu Agripino; Dona Maria Vieira; a professora Carmem e Eloisa, juntamente com a Escola Sagrada Família, além de tantos outros pioneiros na criação da paróquia. Também houve a contribuição dos ex-prefeitos Euclides Neto, José Motta Fernandes e Denise, filha de Euclides, que elaborou a planta da igreja.
“À medida que a comunidade da paróquia São José Operário crescia, surgiu a ideia de que não deveria ser apenas uma comunidade, mas tornar-se também uma paróquia. O Bairro Euclides Neto, por ser um dos maiores da cidade, ficava distante da paróquia, e daí surgiu a necessidade de obter um espaço próprio para evangelizar as pessoas. Assim, deu-se início à construção da igreja, que hoje é conhecida como Paróquia de São José Operário de Ipiaú-BA.”Já existia, na época, a venda de Seu Borges, que servia como ponto de referência e apoio para a comunidade.”
Relatos de um morador do bairro Euclides Neto/São José Operário
“Na minha infância, o comércio do nosso bairro era menor; havia poucas vendas na localidade. Outros comerciantes eram Guilherme, Alcides, Durval, Gordo, Osvaldo e o senhor Manuel, que tinham seus comércios próximos à Praça Amâncio Félix. Para nós, moradores do Bairro Euclides Neto e São José Operário, esses bairros fazem parte do mesmo espaço, ou seja, não há diferença significativa entre eles.
Era na venda de seu Borges que comprávamos diversos gêneros alimentícios, como farinha, doces, bolachas de coco e fofa, além de óleo a retalho. Por algum tempo, também comprávamos querosene lá, pois a área que hoje corresponde ao bairro São José (antiga invasão) ainda não tinha iluminação pública. Tenho boas lembranças de seu Borges, que sempre tratou as crianças com afetividade, carinho e respeito, brincando comigo sempre que eu passava em frente ao seu estabelecimento.”
O bairro Euclides Neto é o maior e mais populoso do município. Atualmente, conta com diversos estabelecimentos comerciais e religiosos, como igrejas evangélicas, terreiros de candomblé, mercadinhos, padarias, farmácias, lojas de roupas, a agência do INSS, um posto de saúde, colégios, entre outros. O crescimento do bairro reflete a força da comunidade local e a participação ativa de seus moradores na construção de espaços sociais e religiosos. É um exemplo de como a união e o esforço coletivo transformam um local em um verdadeiro lar para seus habitantes.

SEU BORGES E A VENDA DO BAIRRO NOVO: MEMÓRIAS E VIDA EM MOVIMENTO
Meu nome é Paschoal. Fui fundador e proprietário da Padaria Trigo Rey em Ipiaú por quase 30 anos, encerrando as atividades em 2001. Durante esse tempo, conheci muitas pessoas especiais, e entre elas está o Sr. Borges, um velho amigo que também foi meu cliente – ou melhor, nosso freguês. Ele é revendedor de pães em sua pequena vendinha no bairro, e todos os dias supríamos pães pela manhã e à tarde para que sua banca nunca ficasse vazia.
Seu Borges sempre foi uma pessoa simples, honesta e correta em seus negócios, cumprindo suas obrigações financeiras com dedicação. Tinha o costume curioso de usar a camisa aberta ao peito, independentemente do clima; talvez já mandasse fazê-las sem botões. É um grande prazer saber que ele ainda está entre nós, gozando de boa saúde e trabalhando na mesma vendinha que tantos conhecem e frequentam.
Mônica Silva compartilha sua lembrança com carinho: “A venda do Seu Borges conseguiu sobreviver a várias gerações em Ipiaú. Ver essa história nos remete à nossa infância, quando andávamos despreocupados pelo Bairro Novo.”
Elizabete Santos também lembra com afeto: “Uma pessoa maravilhosa que fez parte da minha infância. Eu sempre estava na venda comprando doces… boas lembranças!”
Ednaldo Ribeiro expressa gratidão pela vida do pai: “Esse homem, de pequena estatura como Davi, mas um grande guerreiro de Deus, vem vencendo os Golias da vida. Que Deus continue abençoando este grande autor da história, Samio Cassio, e toda sua família.”
Elisangela Alves adiciona detalhes curiosos que marcaram a infância de muitos: “A única unha que ele deixava crescer era a do dedão de uma das mãos, e o mistério que cercava suas noites de lua cheia, por conta de seu cabelo cheio de natureza, era o pavor das crianças.
Reunir essas memórias é celebrar a vida de Seu Borges. Sua vendinha, sua honestidade, seu jeito único e sua dedicação continuam vivos todos os dias, com ele ainda atendendo e fazendo história no Bairro Novo e em Ipiaú. Mais do que lembranças, são testemunhos de uma vida ativa, inspiradora e bem vivida.
REFERÊNCIAS
Fotos acervo pessoal cedido por seu Borges (2018).
LE GOFF, Jacques. História e Memória. Editora UNICAMP: 7º edição revista SP, 1924.História-e-Memória.pdf. Acesso 16/08/2023.
Colaborador seu Borges. (15/08/2023), história e memorias de seu Borges. Entrevistador: Samio Cassio da silva ramos. 15/08/2023 1 arquivo. Mp3 (20min e 30 segundos).
SILVA, Antônio. Colaborador diácono da Igreja São José Operário. Entrevista sobre a construção da Igreja São José Operário.
* Redação : Samio Cassio da Silva Ramos, Professor/a da Educação Básica | Graduação em História – UNEB | Especialização em Gênero, Raça e Sexualidade na Formação de Educadores/as – UNEB
Republicado do Ipiaú Online, com os devidos créditos.